15 de set. de 2016

[A Tati Leu] Nerve (Jeanne Ryan)

Título: Nerve
Autor: Jeanne Ryan
Ano: 2016
Edição: 1
Páginas: 304
Idioma: português 
Editora: Outro Planeta
Sinopse: Você já se sentiu desafiado a fazer algo que, mesmo sabendo que pode se arrepender depois, acaba levando em frente? A heroína deste livro também. Vee cansou de ser só mais uma garota no colégio, e quer deixar os bastidores da vida para assumir seu merecido posto sob os holofotes. E o jogo on-line Nerve, febre nacional transmitida ao vivo, pode ser o início dessa trajetória de sucesso. Basta que ela clique no botão "Jogador" em vez de "Espectador" para entrar na disputa, que propõe, a cada etapa, um desafio novo. A adolescente acaba formando uma dupla imbatível com Ian, um garoto desconhecido com quem trava contato ao se inscrever em Nerve. Juntos, vão galgando posições no jogo. Mas, conforme os dois avançam na disputa, os desafios ficam cada vez mais complexos... e perigosos.


Terminado em 7 de setembro de 2016.

Direcionado a jovens, o novo selo da Editora Planeta, Outro Planeta, não podia deixar de ter entre seus títulos um gênero que muito cresceu na preferência de adolescentes e jovens adultos nos últimos anos: a distopia, narrativa que apresenta uma visão pessimista do futuro e da sociedade, com personagens que são submetidos a injustiças, a situações desesperadoras e ao controle de determinados grupos. No geral, as distopias trazem críticas e, utilizando elementos e costumes do presente, servem como aviso para os leitores.

O gênero é, na verdade, bem antigo (“A máquina do tempo”, por exemplo, foi publicado em 1895, e Suzanne Collins, autora de uma das distopias mais famosas da atualidade, nasceu em 1962; ou seja, a criadora de Katniss Everdeen nem tinha chegado ao mundo ainda, e as distopias já circulavam por aí), mas começou a ganhar mais destaque na mídia e nas prateleiras de livrarias a partir do fim da década passada, com o lançamento de romances distópicos juvenis como os best sellers “Jogos Vorazes”, “Divergente” e “A Seleção”.

Eu (mesmo nem sendo mais jovem!) estou entre os que abriram um espacinho na estante (e no coração, a brega!) para esses romances, então, na última Bienal do Livro de São Paulo, passei pelo estande da Planeta para comprar “Nerve”, que, como toda distopia que se preze, vem carregado de críticas sociais e discussões importantes sobre aspectos da atualidade e do comportamento humano, embora, na minha opinião, elas não sejam tão aprofundadas e explícitas quanto em livros como o já citado “Jogos Vorazes”.

“Nerve” é, provavelmente, a distopia mais próxima de nossa realidade que já li, e talvez resida justamente aí seu poder atrativo. Vivemos em uma sociedade em que as pessoas reconhecem o apelo da exposição midiática e a validam, seja concordando em participar de canais de vídeos e reality shows, em troca de prêmios, dinheiro ou fama, seja assumindo o papel de público, que acompanha avidamente a exploração da imagem dos demais.

Isso sem mencionar, é claro, o tempo que passamos imersos no ambiente virtual, utilizando redes sociais e ferramentas tecnológicas que tornam o dia a dia dos usuários público e embaçam cada vez mais as fronteiras da privacidade. A tecnologia que “Nerve” apresenta não está distante: nós a usamos com frequência. Temos à nossa disposição diversas formas de registrar atividades e momentos pessoais, para então dividi-los com quem quisermos, e tudo isso de maneira muito simples (Alô, Snapchat?).

E é essa a base de “Nerve”, romance sobre um jogo que explora a imagem de seus participantes, submetendo-os a provas física e emocionalmente perigosas.

(Aliás, não quero dar ideias, não, mas a história está tão próxima de nossa realidade, que muito me surpreende ninguém ter pensado ainda em um jogo parecido, no qual usuários cumpram desafios idiotas e transmitam as gravações pelas redes.)

Gostei do livro e acho que ele cumpre seus objetivos, tanto de entretenimento quanto de crítica, abordando temas relevantes como os excessos do mundo virtual e suas consequências. No entanto, acho que a narrativa acaba se perdendo um pouco do meio para o final, deixando algumas lacunas e entregando explicações e desenvolvimentos superficiais. É como se as páginas estivessem acabando e quisessem finalizar logo a história, sabe? Dá uma sensação de que algumas coisas não foram bem exploradas. O próprio desfecho da história é um pouco vago, inconclusivo (sem querer dar spoilers), mas isso, se pensarmos bem, pode significar duas coisas: ou a história é assim mesmo, ou podemos esperar uma continuação.

Na minha opinião, o filme, por incrível que pareça, saiu-se melhor nesse aspecto, desenvolvendo de maneira mais satisfatória alguns aspectos da narrativa, como o romance de Vee, e os personagens, como Ian, que ganha um passado mais definido e mais personalidade. O filme, aliás, é muito (mas muito mesmo) diferente do livro. Provavelmente com o objetivo de aumentar a simpatia do público por alguns personagens, alteraram desde detalhes – como o fato de que Ian dirige uma moto, não um Volvo, como no livro – até pontos muito importantes, como os próprios desafios cumpridos pelos protagonistas e a personalidade de Sidney e Vee.

Acho complicado comparar, porque são construções com objetivos diferentes. Mas, de uma forma geral, gostei dos dois (apesar dos problemas de desenvolvimento do livro). É uma história interessante e dinâmica, com uma narrativa rápida e empolgante, e acho que, de certa forma, ambos cumprem seus objetivos.

Nota 3 de 5



Sobre a autora:


A americana Jeanne Ryan foi criada com onze irmãos e irmãs. Passou a infância no Havaí e, nos anos seguintes, acompanhou a família em suas andanças pela Coreia do Sul, pelos Estados Unidos e pela Alemanha. Antes de se dedicar à ficção, aventurou-se em outras atividades profissionais, entre elas a realização de testes com jogos de guerra e o desenvolvimento de pesquisas com adolescentes. Atualmente, mora com a família em Seattle, Washington.


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