20 de out. de 2016

[A Tati Leu] Nem tudo será esquecido (Wendy Walker)

Título: Nem tudo será esquecido
Autor: Wendy Walker
Ano: 2016
Edição: 1
Páginas: 288
Idioma: português 
Editora: Planeta
Sinopse: Tudo parece perfeito na pequena Fairview, em Connecticut, até a noite em que a adolescente Jenny Kramer é violentada durante uma festa. Nas horas posteriores, ela é medicada com uma droga controversa para que as memórias da violência sejam apagadas. Mas, nas semanas que se seguem, enquanto se cura das dores físicas, Jenny percebe que guardou nuances daquela noite. O pai, obcecado por sua incapacidade de descobrir quem abusou de sua filha, busca justiça, enquanto a mãe tenta fazer de conta de que o crime não abalou seu mundo cuidadosamente construído. Segredos da família e do círculo próximo começam a vir à tona durante a busca incessante pelo monstro que invadiu a comunidade – ou que talvez sempre tenha estado lá –, guiando este thriller psicológico para um fim chocante e inesperado.

[A Tati Leu] Nem tudo será esquecido (Wendy Walker)

Terminado em 16 de outubro de 2016.

Até hoje me surpreende o modo como, em alguns de seus romances, Agatha Christie construiu tramas tão bem elaboradas, tão bem tecidas e trabalhadas, que conseguiu camuflar o culpado pelos crimes apresentados sob a figura do narrador. Não é extraordinário? Quem desconfiaria do narrador, esse ser tão honesto que divide todas as informações que possui com os leitores (só que não)? 

Menciono isso apenas para dizer que Wendy Walker lança mão de um recurso similar, ao utilizar um narrador aparentemente neutro que, ao decorrer da história, vai mostrando que está muito mais envolvido no crime cometido do que teria revelado a princípio. Um narrador que não somente sabe mais do que conta, mas que também utiliza sua influência para dar à história os rumos que mais lhe convêm, manipulando os demais personagens e as informações que lhes oferece. A autora constrói, desse modo, um thriller psicológico que cumpre bem o objetivo principal do gênero a que pertence: prender o leitor, deixá-lo curioso para descobrir o culpado e ansioso para chegar ao final. 

“Nem tudo será esquecido”, lançamento de setembro da Planeta, no entanto, faz mais que isso. As temáticas trabalhadas na narrativa são tão relevantes quanto polêmicas e acabam por trazer à tona questões que jamais deveriam ser deixadas de lado na sociedade atual, embora saibamos que cada leitor lançará um olhar diferente sobre os assuntos tratados e será afetado de uma maneira específica por eles, de acordo com a bagagem que carrega e as próprias ideologias.

Falemos primeiro sobre aquele que parece ser o mote principal da narrativa, apresentado na sinopse do livro: a violência sexual sofrida por Jenny Kramer. Wendy Walker não poupa o leitor ao demonstrar como a violência afetou a jovem e ao mostrar o que ela sentiu quando foi submetida ao abuso. Apesar de logo notarmos que o estupro de Jenny não é de fato a questão central, não há como negar a importância de apresentar seu ponto de vista, especialmente em uma sociedade na qual a cultura do estupro – em especial a culpabilização da vítima – ainda é tão comum.

Sim, a relevância do assunto é clara, mas acredito que a questão central que mencionei seja na verdade a manipulação da mente e o tratamento a que Jenny é submetida após o estupro.

Arrasados com o ocorrido, Tom e Charlote Kramer, pais de Jenny, autorizam um tratamento que consiste no uso de drogas que apagarão a memória da garota, acreditando que isso facilitará sua recuperação. No entanto, a mente não é um documento do Word, no qual apagamos de modo definitivo as palavras que não queremos guardar. As emoções permanecem, e, sem lembranças para contextualizá-las, Jenny não sabe como lidar com elas. E quer saber o mais curioso? Isso nem está tão longe da realidade, como a autora nos conta em uma nota, no fim do livro. Vejam, por exemplo, este artigo da Galileu, publicado ainda este ano, que, entre muitos outros, fala sobre isso.

As explicações em torno do tratamento e do funcionamento da mente são às vezes um pouco cansativas, mas não deixam de causar seu impacto. Temos, durante a narrativa, a oportunidade de refletir sobre o modo como nossas lembranças podem ser manipuladas, sobre como nosso passado influi na formação de nossa personalidade e em nossas escolhas, sobre a maneira como nossa memória se organiza e sobre o quanto podemos ser influenciáveis. Achei muito interessante ler sobre esses aspectos da psicologia, em torno dos quais, de maneira muito inteligente e original, Wendy desenvolve sua história. 


Outro ponto positivo do livro são os personagens: pessoas moldadas por seus traumas, com suas fraquezas, seus objetivos, seus defeitos e os botes salva-vidas aos quais se agarram. Personagens verossímeis, que dão um tom de realidade à trama.


A narrativa é bem construída, mesclando a voz do já mencionado narrador com depoimentos dos demais personagens, o que nos permite compreender melhor os sentimentos de cada um deles. O que eu achei que dificulta um pouco a leitura, e esse é um dos motivos pelos quais o livro não ganhou 5, são os pequenos saltos temporais: o narrador movimenta-se pelas datas e pelos acontecimentos, adiantando-se e então retrocedendo, e, mesmo que sejam variações pequenas (dias ou horas), isso fez eu me perder um pouco na história.

Outra coisa que me incomodou um pouco no livro, na verdade, foi o desfecho. Não que tenha sido ruim, não é esse o caso. Mas fiquei com a impressão de que o leitor não recebe, ao decorrer da história, pistas suficientes para adivinhar o final por si mesmo. Compreendo que esse pode não ser necessariamente o objetivo do livro, mas sabe quando você termina de ler um livro de suspense e pensa: “Nossa! Não acredito que não descobri que o assassino era ele!” ou “Eu sabia! Eu sabia que o assassino era ele! Descobri quando o detetive comentou aquilo sobre as pegadas e as botas”? As pistas estão todas ali, sapateando na sua cara, mas cabe a você percebê-las e interpretá-las corretamente. 

Não foi assim, pelo menos para mim, com “Nem tudo será esquecido”. Não encontrei as pistas que poderiam me levar ao desfecho e, na maior parte do tempo, senti que nem suspeitos eu tinha, e acho que talvez isso diminua um pouco o envolvimento com a história. Afinal, não é muito mais entusiasmante fazer suposições, “chutar” um culpado, do que ficar tropeçando às cegas pela história? Claro que essa é uma experiência de leitura pessoal, e talvez as dicas estivessem todas ali, e eu não as tenha visto. 

No geral, no entanto, recomendo a leitura do livro, em especial por ser bem escrito e pelo enredo inteligente. Ah, e se você adivinhar o fim do livro, não se esqueça de voltar aqui e contar pra gente, ok? 

Nota 4 de 5


Sobre a autora


Wendy Walker é advogada e ex-analista financeira da Goldman Sachs. Ela vive em Connecticut, onde cria seus três filhos e escreve seu próximo thriller.








*Livro gentilmente cedido pela editora Planeta

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