Título: O Círculo
Autor: Dave Eggers
Ano: 2014
Edição: 1
Páginas: 526
Idioma: português
Editora: Companhia das Letras
Sinopse: Encenado num futuro próximo indefinido, o engenhoso romance de Dave Eggers conta a história de Mae Holland, uma jovem profissional contratada para trabalhar na empresa de internet mais poderosa do mundo: o Círculo. Sediada num campus idílico na Califórnia, a companhia incorporou todas as empresas de tecnologia que conhecemos, conectando e-mail, mídias sociais, operações bancárias e sistemas de compras de cada usuário em um sistema operacional universal, que cria uma identidade on-line única e, por consequência, uma nova era de civilidade e transparência.
Mae mal pode acreditar na sorte de fazer parte de um lugar assim. A modernidade do Círculo aparece tanto na sua arquitetura quanto nos escritórios aprazíveis e convidativos. Os entusiasmados membros da empresa convivem no campus também nas horas vagas, seja em festas e shows que duram a noite toda ou em campeonatos esportivos e brunches glamorosos. A vida fora do trabalho, porém, vai ficando cada vez mais esquecida, à medida que o papel de Mae no Círculo torna-se mais e mais importante.
O que começa como a trajetória entusiasmada da ambição e do idealismo de uma mulher logo se transforma em uma eletrizante trama de suspense que leva questões fundamentais sobre memória, história, privacidade, democracia e os limites do conhecimento humano.
![[A Tati Leu] O Círculo (Dave Eggers) [A Tati Leu] O Círculo (Dave Eggers)](https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiYjjuTCtpglGl9nClhOT0suKOxWJ4PcQhGOAIQEH0jXCZsQthHykh8sMy3a1Nn-mcP9mVCqkl4phhNDpqB1kKuntEdtX6ChC5W4TT__mJoBRK223eO4dQteuIkLj7Vb4SxrqEiAdUdq5yt/s1600/138.jpg)
Terminado em 15 de fevereiro de 2017.
Mais uma distopia está prestes a chegar aos cinemas, desta vez protagonizada pela queridinha Emma Watson e pelo ainda mais queridinho Tom Hanks. Mas se você quiser saber um pouco mais sobre a história antes de se arriscar a comprar as entradas para o cinema, a gente te conta o que achou de “O Círculo” ;)
“O círculo” é mais uma daquelas distopias que parecem ainda mais chocantes por conta de sua proximidade com a atualidade. O enredo de vigilância constante e a onipresença de uma entidade totalitária lembram um pouco “1984”, embora alguns elementos específicos os diferenciem, em especial o fato de que “1984” apresenta um governo totalitário consolidado, enquanto “O Círculo” mostra como uma organização consegue alcançar esse tipo de poder e influência.
A história começa com o primeiro dia da jovem Mae Holland em seu novo emprego, em uma prestigiada e poderosa empresa de tecnologia do Vale do Silício. Fundado por três homens considerados geniais e revolucionários, o Círculo integrou todos os serviços tecnológicos e todas as redes sociais atuais em um só sistema, monopolizando dessa forma seu campo de atuação e garantindo a adesão quase hegemônica da sociedade ao seu programa, chamado “TruYou”.
E-mail, redes sociais, acesso bancário, comentários em sites, PayPal. Tudo vinculado a uma única conta, que exige real identificação do usuário. Nada mais de incontáveis senhas, nada mais de anonimato na internet. O cyberbullying é praticamente eliminado, afinal, cada pessoa acaba obrigada a assumir os comentários que faz, e a transparência, a garantia de que estão sendo vistos, melhora de modo significativo o comportamento dos usuários on-line.
Por outro lado, os detentores de tal tecnologia se tornam também os detentores de todas as informações dos usuários, de seus hábitos de consumo, e as aproveitam para gerar ainda mais lucro, oferecendo serviços e produtos de que precisam antes mesmo de saberem que precisam deles (soa familiar?).
Além disso, o que falar da privacidade? A possibilidade de transferir toda a sua vida para um único serviço da internet rompe completamente todas as barreiras que separam o que é público do que o que é privado. As pessoas são estimuladas a socializar tudo o que vivem – opiniões, fotos, vídeos de onde estiveram –, a curtir, a comentar, a analisar. São avaliadas de acordo com sua participação na rede, e seu status é medido pelo quanto são “vistas”, “curtidas”, “disseminadas”. Estar fora da rede é considerado absurdo, algo dificilmente aceito pelos demais, um fator que afetará profundamente a vida social e profissional de quem optar por isso.
O poder e o alcance do Círculo só crescem, e Mae, por sua vez, também passa a ganhar cada vez mais espaço na empresa. O controle da vida on-line não é mais o bastante. Por que não espalhar câmeras por lugares públicos? Por que não abrir a possibilidade de investigar a árvore genealógica de cada pessoa? Por que não submeter autoridades e políticos a uma vigilância constante, durante todo o seu dia, para evitar a corrupção? Por que não colocar nas pessoas dispositivos que monitoram sua saúde e o funcionamento de seu corpo em tempo integral? Por que não implantar chipes nas crianças, para evitar que sejam sequestradas? Essas são algumas iniciativas do Círculo, e elas só evoluem, com o objetivo de tornar todas as pessoas “transparentes”, até comprometerem completamente a vida privada e a democracia.
Há quem se oponha a tudo isso, como é o caso de Kalden (interpretado por John Boyega, que ganhou destaque há pouco tempo dando vida a Finn, em “Star Wars – O despertar da força”), misterioso funcionário do Círculo que Mae conhece em uma festa, e Mercer, ex-namorado que assume o papel de levantar todas as questões a respeito dos limites éticos que a empresa tem desconsiderado.
Todo esse contexto de evolução tecnológica abre espaço para diversas discussões e muitas críticas à sociedade atual. A começar pela vigilância em si: os pretextos são bons – diminuir os crimes, inibir a violência, porque pessoas vigiadas tendem a se comportar melhor; compartilhar o conhecimento; eliminar fronteiras –, mas a que preço? Até que ponto essa exposição seria válida?
Além disso, vale lembrar também o comportamento que nós mesmos temos assumido diante das redes sociais. Claro que isso é representado de um modo caricato, exagerado, mas nós também não valorizamos excessivamente a participação nas redes? Quem tem mais fotos, quem tem mais curtidas, quem interage mais com as pessoas? Há situações ao decorrer do livro que mostram personagens extremamente aborrecidos por não receberem a atenção na rede que julgavam merecer. Uma, por exemplo, mostra-se ansiosa, aflita e ofendida porque Mae não responde imediatamente suas mensagens. E, afinal, quem nunca? Quem nunca ficou aborrecido, criando um milhão de conjecturas, por aquele “curtir” que não veio ou porque alguém visualizou sua mensagem no WhatsApp e não respondeu?
Como pontos negativos, eu mencionaria a própria protagonista, Mae. Não espere uma heroína típica de distopias juvenis. Nada de Katniss por aqui. Nem Tris Prior. Nem mesmo uma América Singer. Mae me parece uma personagem um tanto pobrinha, imatura, egoísta e gananciosa, tão rasa quanto um prato. Não os de sopa. Os de sopa são profundos em comparação.
Acho que é válido também avisar que há no livro cenas de sexo, embora não contribuam em absolutamente coisa nenhuma para a história; além disso, não há grandes conflitos ou eventos emocionantes, o que faz algumas vezes a narrativa patinar, inclusive em seu desfecho, também um pouco fraco. A leitura, por conta disso, vale mais pela crítica em si do que pela força da narrativa e pela evolução da história.
O foco narrativo é em terceira pessoa, com um narrador onisciente seletivo, concentrado apenas em Mae, que, vale lembrar, não é o ser mais genial que veio ao mundo. As implicações negativas das ações do Círculo, dessa forma, não são muito exploradas, o que poderia ajudar a aumentar as reflexões em torno das ações adotadas. No entanto, acho realmente que a leitura ainda vale como crítica e como combustível para reflexões.
O filme “O Círculo” está previsto para estrear em maio no Brasil, mas dois trailers já foram divulgados, para quem tiver se interessado. Confira!
Nota 4 de 5
Sobre o autor
Dave Eggers nasceu em 1970, em Boston. É jornalista, escritor e editor-fundador da McSweeney’s, editora independente com sede em San Francisco. É autor dos livros “Uma comovente obra de espantoso talento”, “O que é o quê?” (finalista do National Book Critics Circle Award de 2006), “Os monstros” (versão romanceada do roteiro que originou o filme “Onde vivem os monstros” e “Zeitoun”, além do romance “Um holograma para o rei”.







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